Novembro de 2026
Novembro de 2026
Do corpo ao trabalho: a necropolítica no capitalismo racial
Em 2026, o III Colóquio Encruzilhadas Culturais: trabalho, capitalismo racial e enfrentamento das desigualdades sociais reafirma seu compromisso como espaço de pensamento crítico, articulação política e produção coletiva de saberes voltados à compreensão das estruturas que organizam as desigualdades no Brasil contemporâneo. Nesta edição, o Colóquio desloca seu foco para as relações entre trabalho, economia política e racismo estrutural, partindo do entendimento de que as desigualdades sociais não podem ser compreendidas sem o reconhecimento de sua dimensão histórica, racial e material.
Assumindo novamente as encruzilhadas como metáfora epistemológica, ética e política, o evento se consolida como território de encontros entre pesquisadoras e pesquisadores, movimentos sociais, trabalhadoras e trabalhadores, juristas, economistas, profissionais das políticas públicas, artistas e estudantes que compreendem o conhecimento como prática comprometida com a transformação social. Mais do que um espaço acadêmico, o Colóquio se afirma como lugar de diálogo entre universidade e sociedade, onde teoria e experiência se encontram para nomear as continuidades coloniais que ainda organizam o mundo do trabalho no Brasil. Estabelecemos como chave de leitura interpretativa os pensamentos de Cedric Robinson, Nancy Fraser, Achille Mbembe, Lélia Gonzalez e Adilson Moreira para compreendermos como o capitalismo racial articula exploração econômica, expropriação social e gestão diferencial da vida, produzindo desigualdades que se manifestam simultaneamente no mundo do trabalho, nas relações de gênero, na distribuição de direitos e nas condições de existência das populações racializadas.
Se na edição anterior o debate se concentrou nas dimensões subjetivas e psíquicas do racismo e suas implicações na saúde mental, nesta terceira edição propomos aprofundar a análise das bases materiais dessas desigualdades, compreendendo que o sofrimento social também se estrutura nas condições concretas de exploração, precarização e negação de direitos. O adoecimento das populações racializadas não pode ser dissociado das formas pelas quais o trabalho é organizado, distribuído e desvalorizado em uma sociedade marcada pela herança da escravidão e pela ausência histórica de políticas reparatórias.
Partimos da compreensão de que o passado colonial não constitui um capítulo encerrado da história nacional, mas uma estrutura ativa que continua organizando o capitalismo brasileiro em suas formas periféricas, dependentes e racializadas. A escravidão, seguida por uma abolição sem inclusão, produziu uma arquitetura social que ainda hoje define quem ocupa os trabalhos mais precarizados, quem permanece à margem das proteções sociais e quem é empurrado para as zonas de informalidade, vulnerabilidade e descarte econômico.
Nesse contexto, o conceito de capitalismo racial se apresenta como chave interpretativa fundamental para compreender como a exploração econômica e a hierarquização racial operam de forma articulada na produção das desigualdades. O racismo, nesse sentido, não aparece apenas como ideologia ou preconceito, mas como tecnologia histórica de organização do trabalho, da pobreza e da distribuição desigual de direitos, reconhecimento e proteção social.
A persistência da informalidade estrutural, a expansão das formas precárias de trabalho mediadas por plataformas digitais, o crescimento das desigualdades de renda, os casos recorrentes de trabalho escravo contemporâneo e a naturalização da pobreza racializada revelam que a promessa de igualdade formal convive com mecanismos concretos de produção de desigualdade material. Nesse cenário, o Estado oscila entre a regulação insuficiente e a gestão punitiva da pobreza, evidenciando as contradições de um modelo de desenvolvimento que historicamente converteu corpos negros em força de trabalho superexplorada e, muitas vezes, descartável.
Inspirado pelas tradições críticas do pensamento social brasileiro, pelas epistemologias negras, pelas teorias feministas e pelas leituras decoloniais da economia política, o III Colóquio Encruzilhadas Culturais se propõe a reunir reflexões que compreendam o trabalho não apenas como categoria econômica, mas como experiência social atravessada por raça, gênero e classe. Nesse horizonte, pensar justiça social implica necessariamente enfrentar as desigualdades raciais como elemento estruturante das dinâmicas econômicas e institucionais do país.
A programação contará com conferências, mesas temáticas, comunicações coordenadas, atividades culturais e o lançamento da chamada pública para o Volume 3 da coletânea Encruzilhadas Culturais: trabalho, redistribuição e o combate às desigualdades econômico-raciais, que reunirá pesquisas e experiências dedicadas a compreender as múltiplas dimensões do racismo no mundo do trabalho, bem como as formas de resistência e reconstrução coletiva produzidas historicamente pela população negra.
Diante de um cenário marcado pela intensificação das desigualdades, pela fragilização dos direitos sociais e pela reconfiguração das formas de exploração do trabalho, o III Colóquio se inscreve como espaço de reflexão crítica, denúncia ética e construção de alternativas comprometidas com a justiça racial e econômica. Em tempos de aprofundamento das assimetrias sociais, reafirmamos a necessidade de produzir conhecimento situado, comprometido e capaz de contribuir para a construção de horizontes mais justos.
Nas encruzilhadas da história, onde se cruzam memória, luta e esperança, seguimos apostando no poder da palavra, do encontro e da ação coletiva como caminhos possíveis para a reconstrução social.
Te convido a se juntar a nós.
Axé, memória e palavra viva.
Prof. Dr. Seu João Xavier