Ele é espada
Ele é espada
20 de fevereiro de 2026 - 09h00
Seu João Xavier
Você se lembra do mito da espada do Rei Arthur? Na lenda, ela se chamava Excalibur e estava magicamente cravada em uma bigorna sobre uma pedra. A profecia dizia que apenas o verdadeiro rei da Inglaterra conseguiria retirá-la.
Mas, diferente da lenda, não há profecia capaz de resolver o que enfrentamos hoje. A espada que nos atravessa não está à espera de um rei digno, nem será removida por um gesto heroico isolado. Ela permanece fincada no cotidiano, nas delegacias lotadas, nos boletins ignorados, nos pedidos de socorro repetidos até perderem o eco. Aqui, não se trata de provar quem é merecedor do poder, mas de questionar por que tantas mulheres precisam provar, reiteradamente, que estão em risco antes que alguém as leve a sério.
Quantas vezes uma pessoa precisa dizer que está em perigo até ser socorrida? Quantas ameaças precisam ser feitas para que a Justiça seja instada a agir? Quantos boletins de ocorrência devem registrar sofrimento, dor, medo e vulnerabilidade para que medidas sejam efetivamente adotadas na proteção de uma mulher?
Apenas nos meses de janeiro e fevereiro, inúmeros casos de feminicídio encharcaram de sangue as manchetes. A espada, obviamente, tem dois gumes. Em um deles, mulheres, esposas, namoradas, noivas, ex-companheiras, vítimas da brutalidade de homens que confundem posse com afeto e controle com amor. No outro, um Estado cujos sistemas de proteção seguem ineficazes, frágeis e, no pior cenário, tardios.
Essa espada está cravada em uma rocha imensa: uma sociedade que naturaliza agressões, desacredita denúncias, ignora pedidos de socorro até que seja tarde demais e, então, lamenta estatísticas.
Recentemente, dois casos ganharam notoriedade pelo desfecho ambíguo quanto à eficácia institucional. O primeiro envolveu um homem absolvido após agredir o genro com oitenta chibatadas, em São Paulo, motivado pelas agressões que ele vinha praticando contra sua filha. O segundo ocorreu em Três Barras do Paraná. Juliano Schina dos Santos, de 32 anos, morreu após ser atingido por disparos efetuados pelo pai de uma jovem que vinha sofrendo agressões do ex-namorado, mesmo depois de registrar boletim de ocorrência.
Ambos os episódios revelam o desespero de familiares diante da sensação de abandono institucional. Pais que assistem às filhas em risco enquanto percebem lentidão ou ineficácia na resposta do sistema de Justiça. Mas essa realidade não se limita a esses casos.
Nesta semana, circulou a gravação de uma adolescente de 14 anos ligando para a Polícia Militar para denunciar, em tempo real, as agressões do pai contra a mãe. Ao buscar mais informações, encontrei inúmeros relatos semelhantes. Não exatamente o que procurava, mas a confirmação de um padrão.
Vivemos uma crise profunda de confiança na Justiça social e na proteção de mulheres e crianças.
Há quem se apresse em chamar esses pais de heróis ou repita frases como “quero ver agora bater em mulher”. Comentários assim parecem fortes, mas são simplificadores. Esvaziam a responsabilidade de uma estrutura social machista, patriarcal e sustentada por interpretações culturais que colocam a mulher em posição de subordinação.
Existe uma consciência tóxica que não protege meninas nas escolas, adolescentes no ensino médio, mulheres nas universidades, professoras em seus ambientes de trabalho, esposas dentro de casa, trabalhadoras em qualquer contexto. Uma cultura que relativiza abusos, silencia vítimas e normaliza o inadmissível. Falo do banco da igreja onde ainda se prega submissão. Da rua em que a discussão na casa vizinha é tratada como assunto privado. Do seu irmão ou amigo que agride a companheira e recebe proteção familiar porque, afinal, ela estaria exagerando ou mentindo.
Em 2025, o Brasil registrou 1.518 feminicídios. Uma média de quatro mulheres assassinadas por dia. Não são números abstratos. São vidas interrompidas.
Enquanto continuarmos tratando cada caso como episódio isolado e permitindo que a indignação dure apenas o tempo de uma manchete, a espada seguirá cravada. Falta aplicar as leis vigentes, bem como investir massivamente em campanhas educativas; falta uma ruptura cultural com a mentalidade que assassina mulheres. A violência não começa no disparo nem na facada, mas na piada tolerada, na denúncia desacreditada, na omissão convenientemente justificada.
Retirar essa espada da rocha não é tarefa de um herói. É responsabilidade coletiva. E começa no instante em que deixamos de naturalizar o inaceitável.
A solução não está no crime do pai que vinga a violência sofrida pela filha. Quando ele também se torna criminoso, o que resta? Como fica a mente desse homem que sempre afirmou não ter criado a filha para ser agredida por ninguém e, para protegê-la, precisou cometer outra violência? Vamos institucionalizar a vingança como resposta social? Passaremos a aceitar o assassinato de agressores como mecanismo legítimo de justiça?
Acredito que esse não seja o caminho, pois apenas desloca a responsabilidade. Quem deve proteger as mulheres: o pai ou o Estado?
Precisamos pensar em responsabilização eficaz, rápida e educativa. O agressor deve ser preso. Deve haver consequência. Mas também deve haver reeducação obrigatória, acompanhamento psicológico, monitoramento, programas estruturados de enfrentamento ao machismo, à misoginia e à LGBTfobia. Punição sem transformação apenas reproduz o ciclo.
Muitos desses homens são arrimo de família. Quando simplesmente os retiramos da sociedade sem qualquer trabalho de reconstrução, vigiamos, punimos, mas não ensinamos. E, em alguns casos, aprofundamos vulnerabilidades econômicas que mantêm mulheres presas a relações violentas.
Se tantas ainda permanecem em relacionamentos abusivos por dependência financeira, o encarceramento sem política pública de suporte pode ampliar o problema em vez de resolvê-lo.
Responsabilidade coletiva exige ação concreta. É urgente fortalecer e ampliar as Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher, garantir funcionamento ininterrupto e equipes capacitadas, investir em casas-abrigo seguras e em número suficiente, acelerar a concessão e fiscalização de medidas protetivas com monitoramento eletrônico eficaz, integrar bancos de dados entre Polícia, Ministério Público e Judiciário para evitar falhas na comunicação, e assegurar acompanhamento psicológico contínuo para vítimas e filhos expostos à violência. Educação preventiva nas escolas, formação obrigatória de agentes públicos e campanhas permanentes de conscientização não podem ser ações episódicas, mas políticas estruturais. Não se trata apenas de punir depois. Trata-se de impedir antes. Precisamos de justiça que proteja sem alimentar mais violências. Queremos respostas que interrompam o ciclo, não que o ampliem.
Precisamos garantir que essa espada pare de ferir indiscriminadamente todas e todos ao redor.